terça-feira, 15 de novembro de 2011

O CHORO QUE VEM ANTES DA RESSURREIÇÃO


Jesus chorou um pouco antes de ressuscitar a Lázaro. Parece contraditório, saber que vai tirar o amigo da morte, porém, a despeito disso, chorar...e chorar com certa indignação como sugere a palavra grega usada.

Você vê o futuro melhor, mas assim mesmo chora diante do imediato. É assim a alma dos filhos dos homens, na melhor perspectiva.

Estranho é pensar que Deus é; que Nele tudo é está acontecendo; e que ainda assim Ele sente com humores do tempo, e se emociona com a vida, e se encanta e assusta com a fé dos seres insuspeitos de religião, como o centurião e a siro-fenícia do Evangelho.

Deus se espanta e Deus chora...

Deus é, mas não é zen!

Assim, diante da tumba onde a ressurreição venceria a morte, fazendo dela apenas um sono a ser interrompido pela voz de Jesus, o choro doído teve o seu lugar.

Essa é a síntese que busco para mim como pai enlutado, em Cristo. Estar enlutado em Cristo é completamente diferente de estar enlutado sem Cristo. Você vê a eternidade; você sabe que é mergulho no entendimento pleno; que é luz eterna, que é gozo, que é amor absoluto. Você sabe o que é; você mesmo está ansioso para estar lá; porém, a despeito disso tudo, você chora ante a ressurreição.

Que conforto humano e divino eu tenho Neste que chora ante a ressurreição, que não deixa o milagre o tornar menos humano, e nem permite que a divindade lhe roube a fraqueza.

Sim, que alegria é vê-lo chorar com você, quando você mesmo já vê a ressurreição. Ele chora com você e se alegra com aquele por quem você chora.

É isso mesmo: Ele não priva você de chorar também a dor do hoje, desse imediato real. Sim, desse imediato que hoje, para mim, significa muita dor; e mesmo tentando continuar fazer tudo como sempre, e dando o meu melhor; às vezes seguindo todos os caminhos da normalidade emocional; porém, o tempo todo com aquele olhar que vê meu filho “ressuscitado” em Cristo, vivo Nele, em gozo e glória; embora não deixe de sentir também nem por um instante aquela forte e poderosamente fina e surda dor, e que hoje habita a base de meu sentir em-si...ou seja: em mim-mesmo.

“Eu vim buscar teu filho; foi por isto que Ele morreu”; seria uma forma inversa de dizer: ”Nosso amigo Lázaro morreu; mas eu vou para despertá-lo”.

Mesmo assim, Jesus chorou; e eu, que posso fazer? Posso não me derramar de chorar também?

Ah, Deus sabe que não posso; posso evitar o assunto; mas não posso deixar de levar o seu sentir...

A gente olha para o céu e vê muitas estrelas que nos iluminam com a luz de seu passado, visto que já não existem. Sua luz, porém, ainda cintila diante dos nosso olhos, embora tudo não passe de uma estrada de luz, e que está terminando, que vem se encolhendo, se enrolando, até que a última parte dela chegue como último ponto de luz...aos nossos olhos.

Nós, no entanto, fazemos poesia para o que ainda aparece, mas já não é. Em Cristo, eu faço poesia para quem aqui já não é, pois se foi...embora agora mesmo é que ele tenha se tornado...

Assim, choro pelo que já não é, apenas porque se tornou. E me alegro pelo que ele se tornou, apenas porque choro quem ele aqui já não é.

Jesus chorou antes da ressurreição.

Obrigado, Jesus!


Caio

Um comentário:

  1. Que lindo, me tocou profundamente.

    Um beijo, bem-vinda ao meu blog, vou acompanhar o teu também.

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